Enviado pela Maria do Rosário Santos, 1ºE
“LIBERTEM O MAGENTA
Se esta página fosse publicada por uma empresa da Net ou de telecomunicações não poderia ser desta cor. A telefónica alemã decidiu torná-la uma marca registada.
Terá sido baptizada em honra da sangrenta batalha de Magenta (uma cidade), que abriu caminho à unificação da Itália. Sobre os muitos milhares de mortos, um poeta terá escrito sobre a cor do sangue misturado com a neve. E assim, a partir desse ano de 1859, essa nuance de rosa-choque terá passado a chamar-se magenta. Até aí a cor dava por outros nomes: carmim, fúscia, ou púrpura – “um dos mais importantes e mais caros corantes da História”, como explica Palmira F. Silva, professora de engenharia química, no blogue De Rerum Natura ( A natureza das coisas).
Obtida a partir da secreção mucosa de moluscos do género púrpura, eram precisos, conta a química, cerca de 10 mil para produzir um único grama de corante. A cor chegava a ser mais cara do que o ouro. Só os mais ricos membros da nobreza ou do clero conseguiam vestir-se de púrpura – ou magenta. Nero chegou a decretar que só os Imperadores romanos poderiam usar essa cor.
Dois mil anos depois, a maior empresa de telecomunicações da Europa ditou o mesmo. Baseando toda a comunicação da T-Mobile (operador móvel) no magenta, a Deutsche Telekom decidiu registar a propriedade da cor no Instituto de Harmonização no Mercado interno, que regula a concessão de marcas ao nível comunitário: para tudo o que tenha a ver com telecomunicações e Internet, o magenta passou a ser deles. Na União Europeia, qualquer empresário destas áreas que quiser usar a cor terá de lhes pedir. E pagar, claro. Só há um problema: não foram eles que a inventaram. O magenta, (com o azul e o amarelo) é uma cor primária, ou seja, não resulta da mistura de outras cores. Mesmo assim o registo da patente foi aceite, já há sete anos. E desde então, a companhia alemã, também conhecida como gigante cor-de-rosa, tem processado empresas do ramo das comunicações ou de serviços na Internet que usem o magenta.
A situação foi desde logo polémica. Muitos críticos perguntaram o que aconteceria se outras empresas começassem a registar outras cores; vários questionaram a legalidade do acto; alguns caracterizaram a medida como um roubo do património intelectual e cultural das artes gráficas – o magenta é uma das quatro cores que, com o amarelo, o azul e o preto, são usadas pelos computadores e impressoras para fazerem todos os outros tons.
Uma empresa de comunicação holandesa decidiu reunir toda a contestação num único sítio e apelou à criatividade. O freemagenta.nl tem recebido contributos de vários profissionais do grafismo: sem o magenta, a pantera cor-de-rosa aparece azulada, os lábios de Penélope Cruz são cosidos, num quadro de Andy Warhol o rosa forte é substituído pelo cinzento. Os exemplos são tantos que até se pensa em editar um livro sob o tema: como seria o mundo sem o magenta?”
In Sábado, nº 200
Isabel Lacerda

